terça-feira, 20 de setembro de 2011

Jorge Henriques Alves: TV Tupi 31 anos depois

Jorge Henriques Alves
TV Tupi 31 anos depois...
                                                                      Por: Hugo Kochenborger da Rosa*
Rio de janeiro,  12hs36min do dia 18  de julho de 1980.  Na TV Tupi centenas de rostos expressavam inquietação, nervosismo e cansaço extremo. Muitas daquelas pessoas,  já de cabelos brancos e que choravam copiosamente, testemunharam o nascimento e naquele momento testemunhariam a morte daquela emissora.  18 horas de vigília dos funcionários, transmitida ao vivo e comandada pelo apresentador Jorge Perlingeiro, num esforço hercúleo para tentar salvar a televisão pioneira dos brasileiros não foram suficientes para demover o Governo Federal da sombria decisão de impedir a renovação da concessão do canal.  O destino daquela Rede, fundada 30 anos antes pelo jornalista Assis Chateaubriand Bandeira de Mello estava selado! Enquanto isso, em suas casas,  os telespectadores assistiam  aflitos e comovidos a essa cena agonziante,  que certamente foi a mais triste e dramática história já transmitida por uma estação de televisão – seu próprio fim.  Em seus derradeiros instantes, o ator e locutor Cévio Cordeiro ainda lia uma mensagem direcionada ao Presidente da República  implorando para que o pior não acontecesse.  Enquanto isso em um GC que bailava de forma intermitente na tela do televisor, os telespectadores podiam ler uma mensagem que dizia  “Até breve telespectadores amigos. Rede Tupi”. Nesse momento um engenheiro do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), sob ordem do então Presidente da República, João Baptista Figueiredo, retirava equipamentos vitais para o funcionamento do transmissor e consumava a lacração da TV Tupi do Rio de Janeiro.  A de São Paulo (Pioneira da América do Sul e quinta televisão do mundo), já havia sido retirada fora do ar horas antes, bem como as TVs Piratini (Porto Alegre), Itacolomi (Belo Horizonte), Marajoara (Belém), Ceará (Fortaleza) e Rádio Clube (Recife).
Engenheiro do Dentel consumando a lacração da TV Tupi do RJ

Imagem Emblemática: Operador de câmera da TV Tupi do Rio chora, ao ver a emissora fora do ar após as 18 horas de vigilia.

 Raras imagens da vigilia de 18 horas que antecedeu ao trágico desfecho
Reportagem da Band sobre o momento da lacração da TV Tupi

 
                             Imagens logo após a lacração da Tupi do RJ cedidas por Jorjão/arquivo pessoal


Um desses heróis anônimos,  que junto aos seus colegas esforçou-se até o derradeiro instante em sua trincheira para  tentar reverter esse desfecho tão trágico quanto ingrato, foi Jorge Henriques Alves.  Jorjão, como era conhecido entre os colegas, era um profissional já na época experimentado na área de televisão. Durante os últimos 17 anos esteve atuando naquela emissora sendo testemunha ”in loco” de muitos e muitos acontecimentos que hoje fazem parte da história da televisão no Brasil.  É Jorjão quem bate um papo agora com o Blitz e revela algumas  dessas histórias.
Hugo -  Jorge, quando você entrou para o quadro de funcionários da TV Tupi?
Jorge Henriques Alves (JH) - Ingressei na TV Tupi no dia 22.11.1963. Não poderia jamais esquecer dessa data, mesmo que quisesse!! O mundo estava em polvorosa, pois naquele dia havia sido assassinado o Presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy.  Houve muita confusão entre as diversas redes de televisão do mundo todo, pois todas queriam dar primeiro o furo de reportagem. O mundo literalmente estava parado por conta da gravidade desse fato.
Hugo -  Qual era sua função na estação?
JH  - Minha primeira função na emissora foi a de arquivista. Depois de arquivista, fui operador de vídeo, operador de VT níveis C, depois B e A (montador) e finalmente chefe do setor.
Hugo  - Como era a convivência com os demais colegas?
JH -  Poderia dizer que era  a melhor possível. Era um ambiente maravilhoso, praticamente uma família. A televisão era muito mais humana naquela época. Apesar de não se ter o mesmo apuro técnico dos dias hoje, tudo o que era feito, era realizado com muito carinho e respeito pelo telespectador, ao contrário de muita coisa que atualmente é levada ao ar pelas emissoras.
Hugo  - Comente algo sobre os equipamentos que você operava na época.
JH - Basicamente eram os aparelhos de vídeo-tape, com os quais captávamos,  editávamos e levávamos ao ar  imagens previamente gravadas para serem veiculadas num momento seguinte. Essas imagens poderiam ser um jornal, telenovela, comercial, e assim por diante. Técnicamente falando, alguns desses equipamentos eram Quadruplex Rca Tr1/Tr 4 /Tr600/Ampex1100,/660 e Bcn 50 e 20. 

                                                             Restauração do Acervo da TV Tupi


Hugo - Quais os principais cartazes artísticos com quem você lembra de ter convivido?
JH - Muitas figuras consagradas passaram pelo cast da emissora em todos aqueles anos. Poderia citar meio que por alto Flavio Cavalcanti, Chacrinha, Aerton Perlingeiro,  Chico Anísio, J.Silvestre e o proprio Silvio Santos, isso sem contar o elenco de atores, muitos dos quais ainda em atividade em outras emissoras.

                                           Raul Seixas na " Discoteca do Chacrinha". TV Tupi  (1974)
                                                                    O dono do SBT também passou pela Rede Tupi 

O Fundador: Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968), em 1954, sendo ovacionado no desfile comemorativo ao IV centenário de São Paulo
Hugo – Qual sua visão sobre o fundador da Rede Tupi, o Dr. Assis Chateaubriand Bandeira de Mello?
JH- Foi um gênio! Pessoa extremamente empreendedora  e conhecedora. Montou um império que em seu auge era composto por 36 emissoras de rádio, 18 revistas, 36 jornais, 18 emissoras de televisão, sem falar na Revista semanal O Cruzeiro.  Mas a “cereja do bolo” da obra de Chateaubriand sem duvida foi a ousadia de montar a primeira emissora de Televisão da América do Sul, que foi a pioneira TV Tupi de São Paulo, em 1950. No ano seguinte entraria em atividade a  nossa emissora, ou seja a TV Tupi do Rio. No Rio Grande do Sul, a estação da rede, que era a TV Piratini, Canal 5,  seria fundada em Porto Alegre oito anos depois, ou seja,  em dezembro de 1959.  Seu sinal atingia a maior parte do estado.
 
São raras as imagens de Chateaubriand em movimento
Infelizmente Chateaubriand antes de morrer, subdividiu em testamento todo o seu império em condomínios, e esse sistema condominal acabou se revelando bastante ineficaz. O resultado disso tudo foi um grande déficit financeiro, que acabou sendo o estopim para que a TV Tupi fosse tirada do ar. A situação tornou-se mais grave porque a nossa estação não era vista com muita simpatia por parte do governo militar. Sua preferida era uma outra rede de televisão...
Tanto é que temos a certeza, que se fosse colocado um interventor por parte do governo na rede, o problema que havia poderia ter sido contornado, até porque de todas as praças da TV Tupi, somente as do Rio e São Paulo estavam operando no vermelho. As demais estavam em situação financeira saudável, ou seja, os problemas que haviam não poderiam justificar uma atitude tão drástica como a do cancelamento sumário da concessão de toda uma rede de televisão.
Hugo – Descreva pra gente os principais programas da emissora em seu tempo?
JH - Apesar da simplicidade, citaria no jornalismo, o Repórter Esso. Ainda que fosse praticamente um jornal falado lido diante das câmeras (Uma delas operando num plano aberto e outra  em um plano mais fechado), diria que o Repórter Esso era um informativo de muita credibilidade diante da opinião pública. Algumas das matérias lidas eram ilustradas com imagens estáticas do tipo slide e eventualmente entravam em cena imagens em movimento. O Repórter Esso foi um marco na televisão brasileira na época, e inspirou muitos outros telejornais, inclusive o próprio Jornal Nacional da Rede Globo.
Gontijo Teodoro apresentando o Reporter Esso na TV Tupi do RJ, em 1952.
Reporter Esso
No esporte, principalmente nos primeiros anos, a coisa era muito complicada. Antes do surgimento dos Videotapes, o  cinegrafista ia ao campo com um filme de cerca de 7 minutos de duração, onde tinha que registrar os principais lances, melhores momentos e ainda os gols.  Era uma dificuldade imensa fazer uma reportagem esportiva para a televisão naqueles tempos.
No terreno infantil não da pra esquecer especialmente do Clube do Guri, que ficou no ar de 1955 a 1976, e era apresentado por Collid Filho, e ainda o programa do Palhaço Carequinha, veiculado nas décadas de 50 e 60, sendo que Carequinha chegou também a fazer programas exclusivos para os gaúchos, nos estúdios de nossa emissora no RS,  a TV Piratini. Enfim,  figuras hoje lembradas com saudades pelas pessoas e que fizeram a alegria da garotada durante muitos anos. Depois teve também o Capitão Aza, vivido por Wilson Vianna a partir de 1966, e que permaneceu no ar até 1979. Outro grande sucesso da TV Tupi.
 
Palhaço Carequinha, uma das principais atrações infantis da emissora

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Capitão Aza, outro personagem marcante para a garotada que curtia a programação da Rede Tupi

 Blitz – E os programas musicais?
JH -  Consideraria o programa “A Grande Chance”, apresentado por Flávio Cavalcanti, um dos maiores reveladores de talentos de todos os tempos na televisão brasileira. Muitos dos grandes nomes da  MPB de hoje, tiveram sua primeira oportunidade nesse programa da TV Tupi.  Alguns deles: Armandinho (A Cor do Som),  Alcione, Leci Brandão, Emilio Santiago,  entre muitos outros.

                                                    Flávio Cavalcanti apresentava "A Grande Chance"
Em 1979 a emissora promoveu um grande Festival de MPB, onde despontaram talentos como Oswaldo Montenegro que defendeu a música Bandolins, os gaúchos Kleiton & Kledir (Maria Fumaça),  Alceu Valença (Coração Bobo), Raimundo Fagner (Quem Me Levará Sou Eu), etc...
Hugo – E na área da teledramaturgia, relacione algumas novelas produzidas pela Rede Tupi
Foram bem mais de 100 novelas produzidas pela emissora ao longo de seus quase trinta anos de existência.  Quase todos os grandes atores  e atrizes surgidos até o final dos anos 70 na televisão Brasileira participaram de alguma obra de teledramaturgia da TV Tupi. Algumas novelas que me ocorrem no momento:  Antonio Maria (1968/69), Beto Rockefeller (1968/69), Super Plá (1969/1970),  Bel Ami (1972),  A Viagem (1975-76),  Tchan! A Grande Sacada (1976/77),  O Profeta (1977/78), Cinderela 77 (1977). 
Rubens de Falco, Carlos Alberto Ricceli, Paulo Goulart e Bruna Lombardi estrelaram  "Drácula, uma história de amor" a última novela da emissora que ficou inconclusa, com somente quatro capítulos gravados.

Cenas de Tchan! A Grande Sacada (1977)
Hugo - Você se recorda de alguma gafe memorável ou alguma situação engraçada que tenha presenciado em sua passagem pela televisão?
JH -  Falando do tempo em que a teledramaturgia era ainda feita ao vivo, lembro de um fato bastante hilariante.  Em certa ocasião quando foi dramatizada a “Descoberta do Brasil”, na hora em que Cabral avistava a terra, o contra-regra estava escalado para soltar uma pomba que deveria sobrevoar o cenário.  Mas o que aconteceu foi que contra-regra, acidentalmente soltou a pomba antes da hora e ela foi com tudo em direção ao rosto do “Cabral”, que num reflexo de décimo de segundo tirou o rosto da reta, por pouco não sendo atingido pela ave . Mais engraçada que a situação em si, foi ver a expressão perplexa do rosto do ator diante das câmeras naquele momento. (Risos)
Pórtico de entrada da TV Piratini (Rede Tupi de Televisão) em Porto Alegre nos anos 70. Imagem gentilmente cedida pelo blog da TV Piratini  (tvpiratinicanal5rs.blogspot.com)
Hugo –   No começo da crise da emissora, ainda nos anos 70, teve um momento onde você foi uma peça  fundamental  para por a “casa em ordem”. Como foi que isto se deu?

JH –  Em 1974  a Tupi do Rio estava com problemas de atrasos salariais dos funcionários de alguns meses,  e então a Tupi de São Paulo assumiu a cabeça de rede.  Muitos equipamentos foram enviados da Tupi do Rio para a de São Paulo. Como eu editava os vt´s num TR 70 que era um equipamento novo, e São Paulo precisava de novos editores, fui um tempo para lá. Quando lá cheguei as novelas Barba Azul (de Ivani Ribeiro), Ídolo de Pano (de Teixeira Filho) e O Machão (de Sérgio Jockyman com argumento de Ivani Ribeiro), estavam até reprisando  os capítulos já veiculados por falta de  pessoal habilitado para fazer as edições dos capítulos seguintes naquele novo equipamento. O que complicava mais ainda as coisas é que na época a geração de sinal via satélite pela Embratel entre Rio e São Paulo era bastante deficiente, e sobretudo cara. Ficar repetindo geração de programas era complicado. Então essa foi uma solução paleativa que a direção da emissora encontrou até que tudo voltasse à normalidade. Dessa forma, foi possível colocar a edição das telenovelas em dia e regularizar  novamente a programação levada ao telespectador.
E uma curiosidade sobre  essas telenovelas que acabei de citar. O Machão até hoje foi a terceira telenovela de maior duração na TV Brasileira. Teve nada menos que 371 capítulos. Parte dela foi feita em preto e branco e o restante em cores, já no período em que passei a usar os novos equipamentos de edição. Outra curiosidade:  A Gata Comeu, que já recebeu duas versões por parte da Globo não é nada mais, nada menos que um  remake da novela Barba Azul.

Epílogo:
Os Diários Associados ganharam na Justiça em 1998 ação indenizatória contra o Governo Federal, e terão de ser indenizados pela intervenção que resultou na perda de 5 dos 7 canais das Emissoras Associadas, que não enfrentavam dificuldades financeiras na época.
Circulou  no caderno de cultura "Blitz" da rede de radios e jornais Diário da Manhã, encartado em comum  nos jornais de Passo Fundo, Carazinho e Erechim (RS), em 23.09.2011
*Todos os direitos reservados pelo autor. Proibida a reprodução total ou parcial deste artigo, sem prévia autorização do titular.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

As eleições Presidenciais de 1989..

Em 1989, ano eleitoral,  eu era adolescente.  Como não tinha muito o que fazer resolvi passar nos comitês políticos e pedir adesivos dos candidatos.. Qual criança já não fez isso? hehehe
Ontem, revirando a garagem em busca de algo totalmente alheio a esse assunto, deparei-me com um album do tipo "fotográfico" da Cartona. Daqueles que tem uma página adesiva onde se colocam as fotos, e uma folha plástica transparente que fecha o "sanduiche" para proteger as imagens.  O que foi feito na época a título de travessura ou brincadeira, hoje faz parte da história. Pouquissimas pessoas devem ter guardado até hoje esse arsenal publicitário dos principais candidatos a presidência de então - sim, porque dos candidatos mais "pobres" a publicidade era muito escassa, de dificil acesso, como ainda hoje acontece.
Naquele pleito haviam nada mais, nada menos que 22 candidatos a pasta majoritária do Governo Federal!!
A cédula veio com a seguinte diagramação nominativa:

13 - Lula
42 - Marronzinho
31 - Zafir
22 - Afif
23 - Roberto Freire
54 - PG
25 - Aureliano Chaves
12 - Brizola
43 - Gabeira
16 - Pedreira
57 - Manoel Horta
26 - Corrêa
27 - Celso Brant
11 - Maluf
45 - Mario Covas
27 - Livia Maria
20 - Collor
14 - Affoonso Camargo
56 - Enéas
15 - Ulysses Guimarães
51 - Ronaldo Caiado
55 - Eudes Mattar












O grande vencedor das primeiras eleições presidenciais diretas desde a instituição do regime militar foi...

Fernando Collor de Mello
O que veio a seguir é outra história.............




domingo, 21 de agosto de 2011

Ronaldo Baptista : A voz da publicidade brasileira


Ronaldo Baptista   

A voz da publicidade brasileira
                                                                       Por Hugo Kochenborger da Rosa
Grande dose de talento e belíssimo timbre de voz, fizeram do paulista Ronaldo Baptista durante muitos anos o locutor mais solicitado pelas agências de publicidade para a gravação de peças comerciais, tanto para o rádio, quanto para a televisão. Afinal, para qualquer empresa que se preze, ter seu produto valorizado pelo brilho e talento desse ator, locutor e jornalista nascido à 18 de setembro de 1933 (ele completa 78 anos neste domingo), já era por si só, um grande empurrão na hora de colocar no mercado um novo artigo, ou mesmo, valorizar uma marca já consagrada com uma boa chamada institucional.
Basta citar, que a voz de Ronaldo Baptista foi uma das poucas que tiveram o privilégio de participarem das primeiras peças publicitárias por ocasião do lançamento do ”Volkswagen” – Nome oficial do carro hoje conhecido como “Fusca”. Atualmente  o locutor, que não obstante a fama é uma pessoa acessível, atenciosa e de grande modéstia; detém simplesmente, segundo o “Clube da Voz”, entidade que congrega as melhores e mais caras vozes do Brasil no mundo da propaganda, o título de locutor comercial brasileiro mais importante de todos os tempos. A justificativa: “Ainda que não exista uma estatística oficial a respeito, tem-se como ponto pacífico no meio da publicidade que no Brasil, nenhum profissional do metier, até hoje, sequer chegou perto da quantidade de comerciais gravados por Ronaldo tanto para o rádio quanto para a televisão, ao longo de suas mais de cinco décadas de atuação no mundo da locução publicitária”.
As facetas de Ronaldo Baptista não param: dublagem, narração de “estorinhas infantis”, participação como ator em discos humorísticos, aparições em programas televisivos,  entre outros, também integram seu mundinho particular...
Confira agora um bate-papo com essa simpática figura!

Hugo - Ronaldo, quando você começou sua carreira de locutor?

Ronaldo  Baptista (RB) - Comecei no rádio em São Paulo, à 13 de julho de 1951,  aos 17 anos de idade, a partir de um pequeno contrato assinado junto à rádio América,  com a anuência de meus pais. (Na ocasião, ainda faltavam dois meses para que eu completasse a maioridade). Nessa época, acabara de encerrar meus estudos que tiveram duração de um ano na Universidade Artística de Rádio (UAR), que era uma instituição criada por Normet Pinheiro e sua esposa,  Ruth Sauaya.  Semanalmente esse casal promovia um “Teatro Experimental”, com duração de meia-hora, e que era levado ao ar na rádio Cultura. A interpretação artística era justamente dos alunos daquela escola (UAR). Entre as personalidades que mais tarde lograriam grande fama e que freqüentaram  a Universidade Artística do Rádio, da para citar: Cláudio Marzo, Francisco Cuoco, Murilo de Amorim Correa, entre outros.  Logo iniciei minha carreira. Posteriormente, tive ainda passagens por outras emissoras como as rádios Cultura, Bandeirantes (por vinte e um anos), Record (por dez anos), e Capital (por vinte anos),  na qual apresentei diversos programas e fui voz-padrão.
Fiz também durante cerca de 20 anos muitas peças de radioteatro, sendo que dentre as centenas de obras que representei, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, talvez tenha sido a que maior audiência obteve. Era o programa mais ouvido em São Paulo no horário das 22hs, numa época em que a televisão ainda tinha uma presença muito tímida nos lares brasileiros.

Hugo – E a parte da dublagem como entrou em sua vida?

RB - Em certa oportunidade, recebi um telefonema de Glauco Laureli, para participar das dublagens de “As Aventuras de Rin-Tin-Tin”, pela Gravasom (empresa fundada em 1958),  onde dublei o tenente Rip Masters nas sete temporadas da série. Também  tive a felicidade de indicar o jovem Zezinho Cútolo,  que eu já conhecia da Rádio Bandeirantes. Zezinho dublou maravilhosamente o Cabo Rusty.
Um dos mais célebres personagens com dublagem original de Ronaldo Baptista: Tenente Rip Masters do seriado Rin-Tin-Tin.  (na foto ao lado Cabo Rusty e o proprio "Rintin")

 Naquela época recebíamos 1 cruzeiro para cada anel, take ou tomada dublada. Com a prática adquirida dava pra dublar uns 30 anéis por hora. Como sempre atuava como protagonista, ou seja, o que “mais falava”, dava pra tirar um dinheirinho bom no final do mês.  O “extra”, ganho como dublador, permitiu-me significativa melhoria nas finanças pessoais.
Ainda na Gravasom  dublei a série “Quinta Dimensão” e algumas aberturas do seriado “Além da Imaginação”, que até poucos anos atrás ainda podia ser assistido no canal por assinatura USA (atual Universal Channell)..
Depois, a Gravasom foi adquirida por Mário Audrá, que investiu pesadamente em novos equipamentos, uma vez que a demanda pelas dublagens aumentava cada vez mais. Nascia ali a AIC.. Desta forma as dublagens de Rin-Tin-Tim, que começaram na Gravasom, terminaram na AIC.
Em seguida veio “Viagem ao Fundo do Mar”, e com ele, o personagem do Almirante Nelson,  vivido pelo ator  Richard Basehart, o qual dublei,  nos 110 episódios das quatro temporadas.
Foi nessa época, em 1967 que recebi o prêmio “Governador do Estado de São Paulo”, como melhor radioator do ano. Fui o dublador oficial do ator Tyrone Power em grande parte dos seus filmes.
Cheguei também a fazer televisão, na época da fundação da TV Bandeirantes, quando fui contratado por 500 cruzeiros para participar de um programa humorístico chamado “Cidade de Araque”. Esse programa reunia vários esquetes cômicos e poderia ser comparado com o atual “A Praça é Nossa”. Depois fiz um programa chamado “Sequencia das Oito”, onde interpretei em seis episódios o detetive Sherlock Holmes.
Apareci também em vários programas e videos promocionais, como policial. Adoravam me escalar para interpretar tal personagem, talvez pela minha voz e tipo físico.
Voltando ao assunto da dublagem: dentro do universo infantil,  bem mais tarde, fiz ainda algumas narrações para a “Turma da Mônica”, a pedido da produção do Maurício de Souza. Durante muito tempo, também, fiz narrações para a Disney em chamadas promocionais e dublagens de filmes, como seu locutor oficial em língua portuguesa.
Almirante Nelson  (Richard Basehart): seriado "Viagem ao Fundo do Mar"

Hugo- Nos anos 60 você teve um programa de grande sucesso na rádio Bandeirantes de São Paulo, o “Patrulha Bandeirantes”. Como era esse programa?
RB – Era um programa muito interessante, onde teatralizávamos  acontecimentos policiais. Era como uma espécie de radionovela, só que da vida real. Fatos verídicos vivenciados no universo policial eram recolhidos e dramatizados nesse espaço.  A reportagem musical desse programa era de Celso Teixeira.
Ronaldo com a familia nos anos 60 (esposa Therezinha e filho Ronaldinho)
 Hugo – E o programa “Bom à Beça”?
RB –  Era um programa musical de variedades. Nele recebi artistas dos mais variados perfis, desde  Orlando Silva, até o Trio Esperança.. Foi num dos programas desta série, que Roberto Carlos  divulgou em primeira mão seu primeiro disco, “Louco Por Você”.
Hugo - Segundo os  anais da publicidade, você é considerado  muito provavelmente como o  locutor que mais  peças publicitárias gravou para o rádio e a televisão no Brasil até hoje...
RB - É bem possível que sim. Só posso dizer sobre isso que é muito gratificante ter contribuído um pouquinho no que se fez em termos de locução publicitária nesses anos todos no nosso país. Fico muito feliz com tudo o que aconteceu, e em 2001, ao completar com muita alegria meu jubileu de ouro profissional, recebi uma  linda e inesquecível homenagem, através de uma festa com doze horas de duração,  transmitida  ao vivo pela rádio Capital de São Paulo.
Ronaldo na Rádio Record SP - meados dos anos 70
Hugo – Descreva o roteiro de alguns comerciais marcantes que você tenha gravado no decorrer de sua carreira profissional como locutor comercial
RB - Foram tantos.. fica muito difícil lembrar... Mas assim de cabeça, eu citaria um dos primeiros comerciais da Volkswagen, ainda dos anos 60. Nesse comercial o Fusca aparecia com o letreiro de “auto-escola” estampado nas portas laterais. Eu dava “dicas” como se fosse um instrutor para a então muito jovem atriz Regina Duarte, que, toda atrapalhada tentava com bastante dificuldade por em movimento o sedan, dando uma “surra” no carrinho, pondo sob prova total a resistência do automóvel. No final, entrava outro colega locutor (infelizmente me falta no momento o nome dele),  que “assinava” o comercial, reforçando que o veículo era feito para durar, e que suportava as piores situações sem enguiçar..(como ser guiado por uma aprendiz de motorista como a Regina). Essa idéia era passada na seguinte frase: Você já imaginou, se não fosse um Volkswagen??? (risos..)
Tem outro, esse dos anos 80 e que ficou durante muitos anos no ar. O dos coelhinhos da Duracell, onde o coelhinho carregado com pilha comum era contrastado com um carregado com a Duracell, ambos caminhando e tocando tambor.  O coelhinho da pilha comum logo perdia as forças e parava, enquanto isso o da pilha Duracell prosseguia empertigado e com energia (risos).
Hugo – A partir dos anos 60 você apareceu em vários discos, em especial humorísticos e infantis. Como foi essa experiência?
RB - Foi inesquecível. Fiz participação em dois discos cômicos de Vitório e Marieta, um casal italiano muito engraçado e de grande sucesso na época, tanto no rádio quanto na televisão. Era vivido pelos atores Murilo de Amorim Correa (comendador Vitório) e Maria Tereza (Marieta). O nome dos LP´s: “Show Riso” e “A Volta ao Mundo em um Só Riso”, ambos pela Odeon.  Bem no finalzinho dos anos 60, comecei a narrar historinhas infantis para a “Abril Cultural”. A série, conhecida como “Estorinhas de Walt Disney”, era um suplemento composto por um livrinho ilustrado que contava uma determinada historinha ou conto infantil, e encartado neste vinha um disquinho de 7” (compacto simples), gravado nos estúdios da gravadora RGE para a RCA Victor,  onde cada historinha vinha dramatizada por excelente cast artistico formado por feras da dublagem nacional.
Figuras que vocês conhecem bem ainda nos dias de hoje como a Helena Samara (dubladora da ”Dona Clotilde” – a “Bruxa do 71” do seriado Chaves), Rita Cléos, (dubladora de “Samantha Stephens”, no seriado A Feiticeira),  Borges de Barros (dublador do “Moe” dos Três Patetas, também do “Dr Smith” de Perdidos No Espaço) – todos infelizmente já falecidos – estavam entre os muitos artistas que formaram o elenco para este projeto.  Minha parte nessa produção consistia na narração das historinhas. A trilha sonora era toda original dos filmes dos estúdios Disney.
O convite para  ser o narrador oficial desta enorme coleção, que totalizou 68 fascículos diferentes, ocorreu após eu ter participado de alguns testes,  e partiu da escritora gaúcha de literatura infantil Edy Lima, que era também a responsável por adaptar os textos.
Para as gravações, eu buscava inspiração, imaginando estar rodeado por crianças sentadas no chão, olhando para mim como a um pai paciente e cativante a lhes contar aquelas lindas historinhas.
Dois exemplos de discos de humor com a participação de Ronaldo Baptista
Hugo – Lembra de alguns títulos lançados nessa coleção?
RB – Como já falei, foram dezenas de volumes. Essa série, posteriormente seria relançada em diversas ocasiões de modo periódico ao longo dos anos, com capas diferentes, mas com o mesmo conteúdo. Alguns deles: Bambi, Se Minha Cama Voasse, Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo, Dumbo, O Alfaiate Valente (estrelado pelo rato “Mickey”, Ursinho Puff (hoje o chamam de “ursinho Pooh”), O Natal do Tio Patinhas, Pinóquio, Peter Pan, Mogli, Cinderela, O Carro Que Falava, O Gafanhoto e as Formigas, João e Maria, Branca de Neve, Donald e a Bruxa, 101 Dalmatas, entre muitos outros. Até hoje recebo muito carinho das crianças de todas as idades que relatam quanta alegria essas historinhas proporcionaram à infância delas. Somente essas palavras de carinho e gratidão já bastariam para que eu me sentisse um ser humano melhor, e percebesse, que todo esse trabalho não foi em vão. E essa sensação de “trabalho cumprido”  não tem preço! Sinto-me totalmente feliz e realizado!!
                    Chapeuzinho Vermelho "Estorinhas de Walt Disney" - Narração Ronaldo Baptista (1974)
Ronaldo foi o narrador oficial da série "Estorinhas de Walt Disney" Ed. Abril
Hugo – O que você tem feito atualmente?
RB – Saí da Rádio Capital em 2005, após 21 anos de trabalhos dedicados àquela casa. Cheguei a ser sondado para atuar como voz-padrão da Rádio Record em 2008, mas infelizmente não houve acordo. Entretanto, de qualquer forma, senti-me feliz com a lenbrança do meu nome. Ainda tenho trabalhado bastante, graças à Deus, mas ultimamente tenho reservado um tempinho todo especial para as artes plásticas (sempre adorei pintar), e é claro,  para curtir minha família, que eu amo muito. N do A EM 22.01.2012:   INFELIZMENTE, RONALDO BAPTISTA VEIO A FALECER DE CAUSAS CARDÍACAS,  INESPERADAMENTE NO DIA 15.01.2012, AOS 78 ANOS, DEIXANDO UMA TRISTE AUSÊNCIA A TODOS NÓS:  FÃS, AMIGOS E ADMIRADORES DE SUA FIGURA HUMANA MARAVILHOSA E DE SUA BELA VOZ.  ESSA FOI A ÚLTIMA ENTREVISTA CONCEDIDA POR RONALDO BAPTISTA.
Circulou  no caderno de cultura "Blitz" da rede de radios e jornais Diário da Manhã, encartado em comum  nos jornais de Passo Fundo, Carazinho e Erechim (RS), em 16.09.2011
*Todos os direitos reservados pelo autor. Proibida a reprodução total ou parcial deste artigo, sem prévia autorização do titular.

sábado, 20 de agosto de 2011

Pausa para a Jornada Nacional de Literatura/ Revista O Cruzeiro


Nos próximos dias, o caderno "Blitz" de cultura do Jornal Diário da Manhã estará voltado completamente para a cobertura da  14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo - RS, evento que acontecerá de 22 a 26 de agosto, do corrente.  Deste modo ficaremos alguns dias sem atualizar o nosso blog.   Possivalmente estaremos de volta no dia 09 de setembro. 
A próxima matéria já está sendo depurada, mas até para efeito de surpresa, iremos manter o assunto em sigilo por enquanto... hehehehe




Estou nesse momento folheando uma velha edição da Revista O Cruzeiro, pertencente ao conglomerado "Associado" do pioneiro Assis Chateaubriand. Data da publicação 06.02.1954.
Em poucas páginas, já enriqueci meu cabedal cultural com ao menos cinco informações, que para alguns de vocês provalmente parecerão inúteis, para outros, no mínimo curiosas.



Página 03:

*Tiragem desse número da revista: 535.000 exemplares. (Gostaria de saber qual revista vende tanto assim hoje em dia)

* A Jornalista Geraldina Marx (que fará 100 anos em outubro próximo!!), na  mesma página, introduz a revista falando sobre "Mau Olhado".   Até ai, tudo bem. Esse assunto é recorrente em qualquer revistinha de horóscopo, simpatias e afins de qualquer época. Mas tem uma informação que considerei preciosa nas entrelinhas.  Até a época da publicação da revista, as pessoas do interior, (de lugarejos afastados), utilizavam o termo "mau olhado", para representar certo tipo de "quebranto". Já nas cidades, tal expressão encontrava sinônimo expresso no termo "olho gordo".  Nunca pensei antes, que em qualquer época, houvesse existido tal dicotomia urbana e rural que distinguisse o uso de tais termos...
 


Página 05.

Consta desta página, um anúncio de um produto chamado "Toni", voltado para a beleza capilar feminina.
Hoje, as mulheres que desejam ondular ou encaracolar seus cabelos dizem que irão ao instituto fazer um "permanente".  Ora, a priori, a palavra "permanente" não significa nada sozinha. Permanente sugere que ALGO permaneça.... E o que seria esse algo?
A caixa desse produto de nome "Toni" esclarece:  
 Toni: Ondulação Permanente..  Zássssssss!  Ai está....  Como a lingua é "viva", com o passar dos anos as mulheres curiosamente optaram por abolir a palavra que mais identifica o processo de "embelezamento" que tanto gostam de aplicar às suas madeixas.  Desse modo, o que restou foi um evasivo, dúbio e mal-explicado "permanente", para cognominar tal procedimento estético-capilar  Boa, não?
 


Páginas 06 a 11

O Casamento de Marilyn Monroe.  Após matéria ricamente ilustrada, a respeito do conúbio de tal personalidade da 7ª arte, a revista interpelou algumas figuras importantes brasileiras de então, pedindo-lhes que se manifestassem sobre as bodas da sensual artista norte-americana. Uma das figuras a responder tal enquete, foi o Ministro da Justiça da época, um "tal" Tancredo Neves,  figura que 30 anos após, à 15.01.1985, seria nomeado por um "colégio eletivo", o primeiro presidente não-militar do Brasil após longo período de governo ditatorial.. Neves contudo, como é de domínio público, não chega assumir a pasta, por conta da saúde debilitada e do enorme período de convalescência que percorreu antes de seu passamento, ocorrido a 21.04 daquele mesmo ano. Em seu lugar, assumiu o mais elevado posto na escala política brasileira, o  maranhense José Sarney.


Página 12
Outro anúncio. Desta vez de um sofá-cama da griffe "Drago".  Tal anúncio fazia uma retrospectiva ao ano de 1935, dizendo que na época os prédios começavam a crescer no sentido vertical, surgindo assim os primeiros arranha-céus, e com eles os indefectíveis apar(per)tamentos de poucos metros quadrados - como o meu, por exemplo - hehehe. Para aquele momento, a Drago lançara no Brasil o PRIMEIRO MÓVEL CONVERSÍVEL. O Sofá-cama Drago!!  Desse modo, assim de chofre, descobri o ano em que foi fabricado o primeiro "sofá-cama" no Brasil, e de quebra, o que levou o fabricante a lançar tal funcionalidade doméstica!
 
PS. Tem gente que diz que ler "revistas velhas" pouco ou nada acrescentam. Será?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Suely Neves Rodrigues: Companhia Industrial de Discos - CID



Suely Neves Rodrigues:
O Design gráfico na indústria do disco 

                                                                         Por: Hugo Kochenborger da Rosa

Sempre que você pensa em escutar um disco ou CD, a primeira coisa que lhe vem à mente certamente é o prazer auditivo que aquele som te proporciona, independente de se tratar de um flashback, ou o último hit do Top 40 americano.  Mas um colecionador de discos que se preze, deve ter "olhos de lince" e observar o trabalho além do ponto de vista artístico/sonoro.    Por exemplo: Que tal tirar um tempinho, e localizar nas letras miúdas da contracapa do álbum, quem foi a pessoa que fez o designer gráfico da capa?
É nessa hora que você corre o risco de  visualizar o nome de  Suely Neves Rodrigues, cuja assinatura profissional se acha creditada à muitas e muitas capas de Lp´s . CD´s  e K7´s, que criou com exclusividade para a maior gravadora brasileira de capital 100% nacional: A CID - Companhia Industrial de Discos.
Fundada em agosto de 1958, por Hermann Zuckerman, essa gravadora tem sido, desde então,  protagonista do lançamento de centenas de grandes sucessos da música nacional e internacional, em nosso país. Mais recentemente, por estratégia mercadológica, visando a modernização de sua identidade,  a gravadora passou a chamar-se CID Entertainment.

Hugo - Suely, como e quando você percebeu que seu interesse vocacional era direcionado à arte gráfica, e de que forma você iniciou nessa área profissional?

Suely Neves Rodrigues (SN) -  Desde que me lembro sempre adorei desenhar.  Minha mãe diz que eu era uma criança quietinha, que só vivia entretida com lápis de cores e papel. Por volta dos 15 anos fui convidada a pintar os murais de meu curso de Inglês com personagens do ''Vila Sésamo''. Eu gostava também de desenhar o retrato dos amigos e da família, geralmente à lápis 6B. No ensino médio, antigamente, podíamos escolher um curso profissionalizante,  e eu escolhi, Desenho de Arquitetura, o que se tornou também uma paixão. Quando chegou a época do vestibular fiquei em dúvida entre Arquitetura e Belas Artes, optei por Belas Artes, mas prometendo a mim mesma, fazer Arquitetura algum dia - o tempo não me permitiu, infelizmente. Todos foram contra eu fazer Belas Artes, pois diziam que no Brasil não se dava valor à arte, e  que seria difícil conseguir emprego nessa área. Aí fica o recado - o importante é fazer o que se ama - nunca fiquei desempregada, e sempre trabalhei com prazer, tanto que só tirei duas férias durante a minha vida, e só para ter meus dois filhos.
Bem, me formei em 1981 pela UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Hugo -  Como foi seu ingresso em uma das maiores gravadoras/fábricas de discos do Brasil, a CID – Companhia Industrial de Discos?

SN - Saindo da faculdade, trabalhei um ano em firmas de engenharia como desenhista de arquitetura. Então recebi uma proposta de uma amiga, que estudou comigo na universidade. Ela trabalhava na TV Globo e me apresentou a Arlindo Rodrigues, (carnavalesco da Imperatriz nos anos 70/80 - já falecido), que estava como cenógrafo na Globo. Ele estava precisando de uma assistente, para o projeto de uma cidade cenográfica da novela de época "Dona Beija". Enfim, ele me contratou, mas a Globo resolveu não fazer mais a novela, por causa dos custos. Arlindo então saíu da Globo para a estreante TV Manchete e me levou com ele. Trabalhei lá 4 anos, durante esses anos fiz a novela "Dona Bejia", entre outras. Como Assistente de Cenografia, desenhava os cenários em planta baixa e também móveis, quando especiais. Depois acompanhava a confecção na carpintaria e decorava o cenário para as gravações.

Suely atuou como assistente de cenografia na novela Dona Beija da Rede Manchete
Foi muito bom e um grande aprendizado para mim trabalhar lá. As pessoas eram muito livres, leves e soltas! (risos.). Só o salário que não era satisfatório. Foi quando então, em 1986,  surgiu a oportunidade de trabalhar na CID, onde eu iria ganhar mais, e iria dentro das artes atuar em “programação visual''. Fui contratada, após entrevista com Harry Zuckerman, filho do dono da gravadora, Sr. Hermann Zuckerman,   para substituir a diretora de arte  Maria Cambraia Fernandes (muitos discos antigos da gravadora constam o nome dela nos créditos),  e que após longos anos de trabalho na CID, decidiu sair da gravadora, ao resolver casar-se com um americano e ir morar em New Jersey .  Esse foi o princípio de 11 anos de um trabalho que fiz com muito amor!

Prédios da Cia. Industrial de Discos
Hugo -  A CID possuia um grande parque gráfico próprio. Descreva pra gente como esse segmento da fábrica funcionava.

SN - A gráfica funcionava sempre partindo do fotolito, que ía para uma máquina que gravava uma chapa metálica, em seguida esta passava para uma outra máquina com uns rolos enormes de papel. Nesta máquina eram colocadas  as tintas e então, finalmente  eram rodadas as capas. Em síntese era isso.

Hugo -  Mesmo sendo algo que ja existia a muito tempo antes de você ingressar no time da CID, você saberia quem foi o artista que bolou o clássico logo da gravadora?

SN - Realmente não sei quem criou. Provavelmente foi a Cambraia, a diretora de arte que me antecedeu.

 Hugo -  Na sua época, os principais selos da gravadora eram: SQUARE, FAMA, CID, 101 STRINGS, CARROSSEL, CRAZY CAT, MAGIC MUSIC, ITAMARATY, OBA, CID ESPECIAL E CID LUXO. Quais eram os critérios que norteavam a gravadora no momento de direcionar em qual desses selos uma música ou artista seria encaixado?  O que diferenciava uns do outros?

SN - Os selos eram criados pela diretoria da CID (Dr. Harry). Claro que o tipo de música também tinha que acompanhar muitas vezes o significado do selo, como nos casos de 101 Strings,  que era um selo específico para os discos da orquestra de 101 cordas, o Carroussell para discos de temática infantil, o Oba (samba e pagode)  e o Magic Music, voltado para os amantes da música erudita. Mas basicamente  a finalidade maior era a de normatizar as faixas de preços dos discos mesmo.

Alguns selos da Cia. Industrial de Discos:   Square

101 Strings

Carroussell

CID

CID Especial

CID Luxo

CID Luxo

Fama

Itamaraty

Magic Music

Oba
Hugo - Como você criava o lay-out das capas naquela época? 

SN - O lay-out das capas eram rascunhados em lápis e papel, e os textos eram calculados através da fonte (tipo e tamanho de letras escolhidas). O pedido do texto era encaminhado a uma firma terceirizada, a qual nos mandava esse material de volta, impresso em papel especial.  Esse papel era recortado e colado na ARTE FINAL, de acordo com a diagramação escolhida.  A cola usada era aquela de “sapateiro''. Tanto que os arte-finalistas, ganhavam adicionais de insalubridade,  pelos possíveis danos causados a saúde. Tudo isso era muito trabalhoso!
Você não imagina o alívio, quando chegou o computador com o programa que eu mais uso para desenhar o ''Corel Draw''.
Hugo - Tem alguma capa que tenha te marcado mais? E qual teria te causado maior "dor de cabeça" no processo criativo, você se recorda?

SN - A capa que mais me marcou foi a primeira, pois era um trabalho que eu nunca havia feito, e felizmente, tudo deu certo. O disco (LP e Fita k7) de título ''Romantíssimo''  era uma coletânea de músicas que incluía sucessos como Crazy Horse (Et Sortout Ne M´oublie Pas),  Wess & Dori Ghezzi (Noi Due Per Sempre),  Pepino Di Capri (Ancora Com Te), entre outros. A foto com os modelos foi alugada, como era de costume na época.
A capa mais problemática, não em dificuldade de fazer, mas pelas coisas estranhas que ocorreram na época, foi um disco para um centro de macumba. A capa consistia numa  ilustração com algo como uma silhueta de um homem de chapéu, muito sinistra. Bem,  os fenômenos que ocorreram na época, tanto em minha casa como nas de outras pessoas envolvidas na produção não dariam para contar aqui. (risos.)..

    "Noi Due Per Sempre" com Wess e Dori Ghezzi: Um dos sucessos do passado que integraram o Lp Romantíssimo (1986)
Algumas capas de discos CID com direção de arte e/ou criação de Suely
Hugo -  E as fotos de paisagens, modelos, etc.. que ilustravam alguns discos da gravadora? De onde eram provenientes? 

SN - As fotos de paisagens e de alguns modelos eram alugadas por firmas com KEYSTONE e THE IMAGE BANK, que nem sei se sobrevivem hoje. Produzíamos também fotos com modelos que eram selecionados por mim, e geralmente eu também produzia e dirigia essas fotos.
 
Hugo -  E sobre a figura do proprietário da gravadora, o Sr. Harry Zuckermann, o que você comentaria?

SN - Logo que fui trabalhar lá o pai do Dr. Harry, o qual chamávamos de “Seu Zuckerman”, ainda estava vivo, e era ele quem dirigia a gravadora. No entanto, numa viagem a Alemanha, sua terra natal, sofreu um acidente automobilístico e veio a falecer. Os filhos Harry e Rodolpho Zuckerman tomaram a frente da CID. Hoje não sei se eles ainda estão a frente ou a Betina que já estava trabalhando lá quando eu saí, filha do Dr. Harry, assumiu o controle.
O Dr. Harry foi com quem eu trabalhei diretamente durante os 11 anos que estive lá. Nesses anos todos nunca tive nenhum atrito com ele, eu o respeitava muito e ele retribuiu sempre esse respeito. Ele é muito simpático, mais do que o irmão. Sempre foi ótimo negociante, tinha o dom da palavra, (é advogado). Sempre gostei muito dele e também da Betina, sua filha.

Da esq. para a dir. Harry Zuckernan, Funcionária n. identif, Betina Zuckerman e Suely Neves Rodrigues em confraternização na CID (1990)
Hugo -   Em que setores a gravadora era dividida?
SN - Bem, tinha a diretoria, departamento de compras, de marketing, de vendas, de contas a pagar, de direitos autorais, financeiro, pessoal, e o departamento  de artes. Tinha também a fábrica de discos propriamente dita, a gráfica e carpintaria. Havia também o restaurante dos funcionários e o da diretoria.

Hugo -  Lá por 1990, vocês já tinham como certo que o golpe de misericórdia na fabricação dos discos de vinil não tardaria? Ou, por outro lado, havia uma visão de que os dois formatos (LP e CD) pudessem conviver pacificamente?

SN - Infelizmente, tínhamos já nessa época,  a certeza que o vinil não iria permanecer. Que seria substituído integralmente pelos CDs.

Hugo -  Você ainda estava na gravadora na época do encerramento da fabricação dos discos de vinil?  Em caso positivo, que sensação isso causou para os funcionários da fábrica?

SN - Eu ainda estava lá. Foi muito triste!  Muitos colegas  foram demitidos.  Havia a dúvida do que seria feito com todo aquele maquinário. Eu mesma, achava que a CID  não sobreviveria, iria  fechar.  Mas logo, Dr. Harry, com o seu talento comercial, começou a relançar o catálogo da gravadora  em CD, e incrivelmente  meu trabalho dobrou!!  Além das capas novas, havia uma série para reduzir a arte para o novo formato.
Suely em sua prancheta de trabalho  na CID (1990)
Hugo -  Você ainda atua com designer gráfica?

SN - Saí da CID, para ver meus filhos crescerem, e morar num lugar sossegado. Mas como não consigo ficar parada, a minha paixão pela arte me levou a trabalhar apenas por brincadeira com desenho infantil que era o que eu mais gostava. Projetei inicialmente a agenda infantil do colégio dos meus filhos, daí em diante não parei mais. Cheguei a trabalhar para quase 100 escolas, aqui em minha cidade. Abri uma micro-empresa e o negócio não parava de crescer. Com a expansão desse negócio,  me vi diante de um trabalho que não gostava:  Administração empresarial. Tentei que meus filhos assumissem, mas nenhum deles quis saber. Então resolvi fechar o negócio e voltar a ser feliz .
Hoje sou numeróloga, ciência que estudo a 10 anos, e adoro atender pessoas. E quanto a arte fiz um curso de design de sobrancelhas e de maquiagem social e artística. Estou começando a formar minha clientela. Trabalho novamente só com o que amo e assim voltei a ter a paz que sempre busquei.

Hugo -  O que você acha da Polysom ter retomado a produção de discos de vinil no Brasil, e também do recente boom de jovens colecionadores que tem se interessado por esse formato fonográfico? Se desejar  acrescentar algo mais, sinta-se a vontade!

SN - Acho fantástico!  Assim dá-se continuação a um produto mágico e que foi muito importante na história fonográfica.   Gostaria de acrescentar que adorei  esse bate-papo, pois ele me trouxe ótimas recordações. Também quero deixar meu carinho, admiração e respeito a todos os colecionadores  que dedicam seu tempo e atenção prestigiando o bom e velho disco de vinil!

Circulou  no caderno de cultura "Blitz" da rede de radios e jornais Diário da Manhã, encartado em comum  nos jornais de Passo Fundo, Carazinho e Erechim (RS), em 12.08.2011
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