sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Suely Neves Rodrigues: Companhia Industrial de Discos - CID



Suely Neves Rodrigues:
O Design gráfico na indústria do disco 

                                                                         Por: Hugo Kochenborger da Rosa

Sempre que você pensa em escutar um disco ou CD, a primeira coisa que lhe vem à mente certamente é o prazer auditivo que aquele som te proporciona, independente de se tratar de um flashback, ou o último hit do Top 40 americano.  Mas um colecionador de discos que se preze, deve ter "olhos de lince" e observar o trabalho além do ponto de vista artístico/sonoro.    Por exemplo: Que tal tirar um tempinho, e localizar nas letras miúdas da contracapa do álbum, quem foi a pessoa que fez o designer gráfico da capa?
É nessa hora que você corre o risco de  visualizar o nome de  Suely Neves Rodrigues, cuja assinatura profissional se acha creditada à muitas e muitas capas de Lp´s . CD´s  e K7´s, que criou com exclusividade para a maior gravadora brasileira de capital 100% nacional: A CID - Companhia Industrial de Discos.
Fundada em agosto de 1958, por Hermann Zuckerman, essa gravadora tem sido, desde então,  protagonista do lançamento de centenas de grandes sucessos da música nacional e internacional, em nosso país. Mais recentemente, por estratégia mercadológica, visando a modernização de sua identidade,  a gravadora passou a chamar-se CID Entertainment.

Hugo - Suely, como e quando você percebeu que seu interesse vocacional era direcionado à arte gráfica, e de que forma você iniciou nessa área profissional?

Suely Neves Rodrigues (SN) -  Desde que me lembro sempre adorei desenhar.  Minha mãe diz que eu era uma criança quietinha, que só vivia entretida com lápis de cores e papel. Por volta dos 15 anos fui convidada a pintar os murais de meu curso de Inglês com personagens do ''Vila Sésamo''. Eu gostava também de desenhar o retrato dos amigos e da família, geralmente à lápis 6B. No ensino médio, antigamente, podíamos escolher um curso profissionalizante,  e eu escolhi, Desenho de Arquitetura, o que se tornou também uma paixão. Quando chegou a época do vestibular fiquei em dúvida entre Arquitetura e Belas Artes, optei por Belas Artes, mas prometendo a mim mesma, fazer Arquitetura algum dia - o tempo não me permitiu, infelizmente. Todos foram contra eu fazer Belas Artes, pois diziam que no Brasil não se dava valor à arte, e  que seria difícil conseguir emprego nessa área. Aí fica o recado - o importante é fazer o que se ama - nunca fiquei desempregada, e sempre trabalhei com prazer, tanto que só tirei duas férias durante a minha vida, e só para ter meus dois filhos.
Bem, me formei em 1981 pela UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Hugo -  Como foi seu ingresso em uma das maiores gravadoras/fábricas de discos do Brasil, a CID – Companhia Industrial de Discos?

SN - Saindo da faculdade, trabalhei um ano em firmas de engenharia como desenhista de arquitetura. Então recebi uma proposta de uma amiga, que estudou comigo na universidade. Ela trabalhava na TV Globo e me apresentou a Arlindo Rodrigues, (carnavalesco da Imperatriz nos anos 70/80 - já falecido), que estava como cenógrafo na Globo. Ele estava precisando de uma assistente, para o projeto de uma cidade cenográfica da novela de época "Dona Beija". Enfim, ele me contratou, mas a Globo resolveu não fazer mais a novela, por causa dos custos. Arlindo então saíu da Globo para a estreante TV Manchete e me levou com ele. Trabalhei lá 4 anos, durante esses anos fiz a novela "Dona Bejia", entre outras. Como Assistente de Cenografia, desenhava os cenários em planta baixa e também móveis, quando especiais. Depois acompanhava a confecção na carpintaria e decorava o cenário para as gravações.

Suely atuou como assistente de cenografia na novela Dona Beija da Rede Manchete
Foi muito bom e um grande aprendizado para mim trabalhar lá. As pessoas eram muito livres, leves e soltas! (risos.). Só o salário que não era satisfatório. Foi quando então, em 1986,  surgiu a oportunidade de trabalhar na CID, onde eu iria ganhar mais, e iria dentro das artes atuar em “programação visual''. Fui contratada, após entrevista com Harry Zuckerman, filho do dono da gravadora, Sr. Hermann Zuckerman,   para substituir a diretora de arte  Maria Cambraia Fernandes (muitos discos antigos da gravadora constam o nome dela nos créditos),  e que após longos anos de trabalho na CID, decidiu sair da gravadora, ao resolver casar-se com um americano e ir morar em New Jersey .  Esse foi o princípio de 11 anos de um trabalho que fiz com muito amor!

Prédios da Cia. Industrial de Discos
Hugo -  A CID possuia um grande parque gráfico próprio. Descreva pra gente como esse segmento da fábrica funcionava.

SN - A gráfica funcionava sempre partindo do fotolito, que ía para uma máquina que gravava uma chapa metálica, em seguida esta passava para uma outra máquina com uns rolos enormes de papel. Nesta máquina eram colocadas  as tintas e então, finalmente  eram rodadas as capas. Em síntese era isso.

Hugo -  Mesmo sendo algo que ja existia a muito tempo antes de você ingressar no time da CID, você saberia quem foi o artista que bolou o clássico logo da gravadora?

SN - Realmente não sei quem criou. Provavelmente foi a Cambraia, a diretora de arte que me antecedeu.

 Hugo -  Na sua época, os principais selos da gravadora eram: SQUARE, FAMA, CID, 101 STRINGS, CARROSSEL, CRAZY CAT, MAGIC MUSIC, ITAMARATY, OBA, CID ESPECIAL E CID LUXO. Quais eram os critérios que norteavam a gravadora no momento de direcionar em qual desses selos uma música ou artista seria encaixado?  O que diferenciava uns do outros?

SN - Os selos eram criados pela diretoria da CID (Dr. Harry). Claro que o tipo de música também tinha que acompanhar muitas vezes o significado do selo, como nos casos de 101 Strings,  que era um selo específico para os discos da orquestra de 101 cordas, o Carroussell para discos de temática infantil, o Oba (samba e pagode)  e o Magic Music, voltado para os amantes da música erudita. Mas basicamente  a finalidade maior era a de normatizar as faixas de preços dos discos mesmo.

Alguns selos da Cia. Industrial de Discos:   Square

101 Strings

Carroussell

CID

CID Especial

CID Luxo

CID Luxo

Fama

Itamaraty

Magic Music

Oba
Hugo - Como você criava o lay-out das capas naquela época? 

SN - O lay-out das capas eram rascunhados em lápis e papel, e os textos eram calculados através da fonte (tipo e tamanho de letras escolhidas). O pedido do texto era encaminhado a uma firma terceirizada, a qual nos mandava esse material de volta, impresso em papel especial.  Esse papel era recortado e colado na ARTE FINAL, de acordo com a diagramação escolhida.  A cola usada era aquela de “sapateiro''. Tanto que os arte-finalistas, ganhavam adicionais de insalubridade,  pelos possíveis danos causados a saúde. Tudo isso era muito trabalhoso!
Você não imagina o alívio, quando chegou o computador com o programa que eu mais uso para desenhar o ''Corel Draw''.
Hugo - Tem alguma capa que tenha te marcado mais? E qual teria te causado maior "dor de cabeça" no processo criativo, você se recorda?

SN - A capa que mais me marcou foi a primeira, pois era um trabalho que eu nunca havia feito, e felizmente, tudo deu certo. O disco (LP e Fita k7) de título ''Romantíssimo''  era uma coletânea de músicas que incluía sucessos como Crazy Horse (Et Sortout Ne M´oublie Pas),  Wess & Dori Ghezzi (Noi Due Per Sempre),  Pepino Di Capri (Ancora Com Te), entre outros. A foto com os modelos foi alugada, como era de costume na época.
A capa mais problemática, não em dificuldade de fazer, mas pelas coisas estranhas que ocorreram na época, foi um disco para um centro de macumba. A capa consistia numa  ilustração com algo como uma silhueta de um homem de chapéu, muito sinistra. Bem,  os fenômenos que ocorreram na época, tanto em minha casa como nas de outras pessoas envolvidas na produção não dariam para contar aqui. (risos.)..

    "Noi Due Per Sempre" com Wess e Dori Ghezzi: Um dos sucessos do passado que integraram o Lp Romantíssimo (1986)
Algumas capas de discos CID com direção de arte e/ou criação de Suely
Hugo -  E as fotos de paisagens, modelos, etc.. que ilustravam alguns discos da gravadora? De onde eram provenientes? 

SN - As fotos de paisagens e de alguns modelos eram alugadas por firmas com KEYSTONE e THE IMAGE BANK, que nem sei se sobrevivem hoje. Produzíamos também fotos com modelos que eram selecionados por mim, e geralmente eu também produzia e dirigia essas fotos.
 
Hugo -  E sobre a figura do proprietário da gravadora, o Sr. Harry Zuckermann, o que você comentaria?

SN - Logo que fui trabalhar lá o pai do Dr. Harry, o qual chamávamos de “Seu Zuckerman”, ainda estava vivo, e era ele quem dirigia a gravadora. No entanto, numa viagem a Alemanha, sua terra natal, sofreu um acidente automobilístico e veio a falecer. Os filhos Harry e Rodolpho Zuckerman tomaram a frente da CID. Hoje não sei se eles ainda estão a frente ou a Betina que já estava trabalhando lá quando eu saí, filha do Dr. Harry, assumiu o controle.
O Dr. Harry foi com quem eu trabalhei diretamente durante os 11 anos que estive lá. Nesses anos todos nunca tive nenhum atrito com ele, eu o respeitava muito e ele retribuiu sempre esse respeito. Ele é muito simpático, mais do que o irmão. Sempre foi ótimo negociante, tinha o dom da palavra, (é advogado). Sempre gostei muito dele e também da Betina, sua filha.

Da esq. para a dir. Harry Zuckernan, Funcionária n. identif, Betina Zuckerman e Suely Neves Rodrigues em confraternização na CID (1990)
Hugo -   Em que setores a gravadora era dividida?
SN - Bem, tinha a diretoria, departamento de compras, de marketing, de vendas, de contas a pagar, de direitos autorais, financeiro, pessoal, e o departamento  de artes. Tinha também a fábrica de discos propriamente dita, a gráfica e carpintaria. Havia também o restaurante dos funcionários e o da diretoria.

Hugo -  Lá por 1990, vocês já tinham como certo que o golpe de misericórdia na fabricação dos discos de vinil não tardaria? Ou, por outro lado, havia uma visão de que os dois formatos (LP e CD) pudessem conviver pacificamente?

SN - Infelizmente, tínhamos já nessa época,  a certeza que o vinil não iria permanecer. Que seria substituído integralmente pelos CDs.

Hugo -  Você ainda estava na gravadora na época do encerramento da fabricação dos discos de vinil?  Em caso positivo, que sensação isso causou para os funcionários da fábrica?

SN - Eu ainda estava lá. Foi muito triste!  Muitos colegas  foram demitidos.  Havia a dúvida do que seria feito com todo aquele maquinário. Eu mesma, achava que a CID  não sobreviveria, iria  fechar.  Mas logo, Dr. Harry, com o seu talento comercial, começou a relançar o catálogo da gravadora  em CD, e incrivelmente  meu trabalho dobrou!!  Além das capas novas, havia uma série para reduzir a arte para o novo formato.
Suely em sua prancheta de trabalho  na CID (1990)
Hugo -  Você ainda atua com designer gráfica?

SN - Saí da CID, para ver meus filhos crescerem, e morar num lugar sossegado. Mas como não consigo ficar parada, a minha paixão pela arte me levou a trabalhar apenas por brincadeira com desenho infantil que era o que eu mais gostava. Projetei inicialmente a agenda infantil do colégio dos meus filhos, daí em diante não parei mais. Cheguei a trabalhar para quase 100 escolas, aqui em minha cidade. Abri uma micro-empresa e o negócio não parava de crescer. Com a expansão desse negócio,  me vi diante de um trabalho que não gostava:  Administração empresarial. Tentei que meus filhos assumissem, mas nenhum deles quis saber. Então resolvi fechar o negócio e voltar a ser feliz .
Hoje sou numeróloga, ciência que estudo a 10 anos, e adoro atender pessoas. E quanto a arte fiz um curso de design de sobrancelhas e de maquiagem social e artística. Estou começando a formar minha clientela. Trabalho novamente só com o que amo e assim voltei a ter a paz que sempre busquei.

Hugo -  O que você acha da Polysom ter retomado a produção de discos de vinil no Brasil, e também do recente boom de jovens colecionadores que tem se interessado por esse formato fonográfico? Se desejar  acrescentar algo mais, sinta-se a vontade!

SN - Acho fantástico!  Assim dá-se continuação a um produto mágico e que foi muito importante na história fonográfica.   Gostaria de acrescentar que adorei  esse bate-papo, pois ele me trouxe ótimas recordações. Também quero deixar meu carinho, admiração e respeito a todos os colecionadores  que dedicam seu tempo e atenção prestigiando o bom e velho disco de vinil!

Circulou  no caderno de cultura "Blitz" da rede de radios e jornais Diário da Manhã, encartado em comum  nos jornais de Passo Fundo, Carazinho e Erechim (RS), em 12.08.2011
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6 comentários:

  1. Queria saber que disco misterioso é esse quando ocorreram os eventos sinistrsos.

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  2. Parabéns à Suely Neves Rodrigues pelo seu trabalho! Daqui para frente vou verificar meus discos, procurando sua arte.
    Huguinhu, mais uma bela entrevista sua, mostrando detalhes sobre os LPs que iriam passar desapercebidos por nós.

    José Augusto SP.

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  3. Com muitas saudades,li este comentário de Sra Suely Rodrigues, com a qual tive a grata oportunidade de trabalhar na CID.
    Um fraterno Abraço;
    Sergio Coelho de Barros
    sergio.barros55@oi.com.br

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  4. Suely Neves Rodrigues1 de dezembro de 2014 15:35

    Agradecendo mais uma vez Hugo. Adorei!!!

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    1. Ótima entrevista.Parabéns Suely Neves Rodrigues.uma grande Profissional e talentosa?O texto do Hugo valorizou muito a entrevista;Show de Bola!!!!!Abração....Jorjão...

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